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Nossa Senhora Aparecida, no epicentro eleitoral, já foi usada como munição política antes

Por 74 · Farol da Bahia - Política · 26 de setembro de 2026, 12:06
Nossa Senhora Aparecida, no epicentro eleitoral, já foi usada como munição política antes
Imagem da santa tem mais de três séculos de história

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER (FOLHAPRESS) - Nossa Senhora Aparecida já causou rebuliço político muito antes de virar munição eleitoral na disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Sua imagem tem mais de três séculos de história, tempo o bastante para que fosse usada ao bel-prazer por governantes empenhados em capitalizar sobre o mais forte símbolo religioso do Brasil.

Essa trajetória começou em outubro de 1717, quando três pescadores resgataram do rio Paraíba do Sul uma estatueta de terracota enegrecida e fragmentada, separada em corpo e cabeça. A estátua "aparecida" (daí o nome) virou objeto de uma devoção popular que cresceu exponencialmente nas décadas seguintes.

Até o início do século 20, o padroeiro oficial do Brasil era são Pedro de Alcântara, título estabelecido em 1826 a pedido de dom Pedro 1º, que o tinha na mais alta conta. Aparecida, contudo, era quem tinha o coração do povo. Esse clamor popular ganhou contornos institucionais no final de 1929, quando bispos da época pediram que essa representação de Nossa Senhora se tornasse a padroeira nacional. O Vaticano acolheu a proposta em 1930.

A festa pública ocorreu no ano seguinte, em 31 de maio, na então capital do país, o Rio de Janeiro. O agnóstico Getúlio Vargas, que governava o país, estava presente na cerimônia e protagonizou um episódio pitoresco nesse dia.

É o jornalista Rodrigo Alvarez, autor de "Aparecida - A Biografia da Santa que Perdeu a Cabeça, Ficou Negra, Foi Roubada, Cobiçada pelos Políticos e Conquistou o Brasil", quem remonta a cena: "Quando ficou diante da santinha, embora tivesse pedido para ter aquela oportunidade que certamente lhe renderia um bom momento com os fotógrafos, Getúlio não soube o que fazer. Não era religioso. E acabou segurando a barra do manto azul, sem que ninguém entendesse por quê. Então, um bispo o salvou ao dizer: 'Senhor presidente, é para beijar!' E o senhor presidente beijou os pés da padroeira".

Após tomar o poder em 1930, Getúlio encontrou na Igreja Católica uma aliada para consolidar o novo regime. Já a cúpula católica nacional viu na mudança de governo a oportunidade de recuperar a influência política enfraquecida após a separação oficial entre Estado e Igreja, instituída em 1890.

Getúlio já havia criticado o que chamou de "flor mórbida do pessimismo cristão" em sua juventude acadêmica. No Natal de 1907, orador de sua turma de formatura na Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, o gaúcho disse que "a moral cristã é contrária à natureza humana".

Anos depois, o varguismo fez gestos à fé católica, e a Igreja aproveitou para incluir pautas históricas na Constituição de 1934, como o ensino religioso nas escolas públicas e a proibição do divórcio. Aparecida serviu como poderosa ferramenta de legitimação política, isso desde a temporada imperial.

Consta que, em 1868, a princesa Isabel fez uma promessa à santa porque não conseguia engravidar e desejava muito ser mãe. Acabou dando à luz três filhos depois disso. Grata, a princesa presenteou a santinha com uma suntuosa coroa contendo 300 gramas de ouro e 40 diamantes, além de um manto de veludo azul.

Corta para o século 20: dias antes da queda de João Goulart, no domingo de Páscoa de 1964, o presidente da Câmara dos Deputados, Paschoal Ranieri Mazzilli, esteve em Aparecida e garantiu aos padres que Jango estava com os dias contados. Padres do santuário, que já usavam os sermões dominicais para alertar os fiéis contra o que viam como ameaça comunista, celebraram a derrocada de Jango como uma "vitória da revolução democrática".

A vulnerabilidade física de Aparecida foi posta à prova em maio de 1978, quando um jovem de 19 anos com transtornos mentais invadiu a basílica, burlou a redoma de proteção e fez a estátua cair, espatifando o barro antigo em um amontoado de farelos que depois seriam restaurados.

A imagem da Virgem Maria esteve no centro do debate público mais uma vez em 1995, justo em seu dia no calendário nacional, 12 de outubro. Na ocasião, um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus deu chutinhos televisionados numa estátua da padroeira, que chamou de "um bicho tão feio, tão horrível, tão desgraçado". O episódio gerou desgaste para a Universal e evangélicos como um todo.

A ideia de Aparecida como símbolo de resistência católica contra o avanço evangélico voltou à baila no século 21. Em 2007, o então deputado Victorio Galli, pastor evangélico, apresentou um projeto de lei pedindo que a santa fosse reconhecida como padroeira apenas dos brasileiros católicos apostólicos romanos, e não de todo o país. O PL foi arquivado no ano seguinte.

Em 2018, Jair Bolsonaro (PL) foi alvo de uma fake news de que apoiava essa iniciativa. Não há evidências disso. Quando Bolsonaro venceu, Galli virou assessor especial da Presidência.

Oito anos depois, é seu filho presidenciável quem está sendo alvejado pelos mesmos rumores. Flávio nega qualquer intenção de retirar de Aparecida o status de padroeira, boato que diz não ter "pé nem cabeça".

Com informações de Farol da Bahia - Política.