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A Dor Ainda É Combustível Para Que A Realidade Seja Justiça

Por Roberto Verona · Território Notícias · 03 de novembro de 2026, 17:25
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A Dor Ainda É Combustível Para Que A Realidade Seja Justiça
Mariana 11 anos O que movimenta uma luta por 11 anos? A resposta das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão ecoa no lema que marca este mês de novembro: “A dor ainda é combustível para que a realidade seja justiça”. Mai...

Mariana 11 anos

O que movimenta uma luta por 11 anos? A resposta das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão ecoa no lema que marca este mês de novembro: “A dor ainda é combustível para que a realidade seja justiça”. Mais de uma década após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorrido em 5 de novembro de 2015, a dor da perda, o luto e a indignação diante do tempo de espera não paralisaram a organização popular  e a exigência por reconhecimento dos direitos violados. Pelo contrário, vêm impulsionando as pessoas todos os dias a seguir lutando, como uma vela que, quanto mais queima, maior fica sua chama. Essa organização se fortalece junto à Comissão de Atingidos e Atingidas pela Barragem de Fundão (CABF), espaço de articulação e construção coletiva das reivindicações das comunidades ao longo desses anos.

A trajetória da lembrança segue pelo entendimento de que o desastre marcou o início de uma realidade sem precedentes, que liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério, provocando destruição ambiental e humana ao longo de mais de 600 quilômetros. As violações  permanecem vivas no cotidiano das comunidades atingidas. A luta segue ecoando a continuidade dos danos sobre o meio ambiente, a saúde e o modo de vida tradicional das populações atingidas.

“Dignidade e honestidade. Eu não me corrompi em momento algum, eu não fraquejei em momento algum. Eu fui humilhado, fui excluído em muitos momentos, mas, todo tempo eu deixei como aliado meu o tempo” – Marino D’Ângelo, membro da CABF

Hoje, o principal instrumento que orienta a reparação é o chamado Acordo do Rio Doce, homologado em 2024, e é alvo de críticas por parte das comunidades. O processo encerrou discussões e direitos anteriormente estabelecidos, definindo valores e prazos para execução de obrigações que estavam em aberto.  Visualiza-se, na letra fria do Acordo, a repetição das violações, a ausência de diálogo e de protagonismo das comunidades, que, mais uma vez, impede a construção de soluções justas e duradouras. O modelo de reparação adotado, baseado no controle das empresas causadoras do dano sobre o próprio processo, perpetua as violações e consolida um desequilíbrio estrutural que compromete a justiça social e ambiental. Por meio da CABF, as pessoas atingidas seguem organizando suas pautas e reivindicando participação efetiva nas decisões que envolvem a reparação, reforçando que não há solução justa sem a escuta e a centralidade do sofrimento  de quem vivenciou os danos. 

“Isso é um crime continuado, então até as ações de reparação acabam produzindo algum dano também” – Mirella Lino, membro da CABF. 

Nesse contexto de assimetria, a atuação das Assessorias Técnicas Independentes (ATIs) segue como direito das comunidades para equilibrar essa disputa historicamente desigual, garantindo informação qualificada, apoio técnico e fortalecimento da organização popular. No entanto, mesmo sendo um direito garantido por lei e pela Justiça, o trabalho das ATIs também sofre restrições no texto do novo acordo, que impôs um orçamento fechado sem diagnóstico prévio e limitou a atuação das assessorias no caso Fundão a apenas 42 meses (prorrogáveis por mais seis), enquanto as medidas propostas em seu texto se prolongam por até 20 anos.

“Se a proposta de reparação prevê um horizonte de 20 anos, é justo e necessário que a Assessoria Técnica seja garantida pelo mesmo período. Não é razoável imaginar que as comunidades enfrentem duas décadas de processos complexos sem o suporte técnico necessário para compreender, acompanhar e fiscalizar cada etapa da reparação” – Mônica dos Santos, membro da CABF. 

.Apesar das constantes disputas em torno desse direito, 2026 traz também um marco de resistência contínua: os 10 anos de atuação da Cáritas/MG enquanto ATI em Mariana no acompanhamento diário às comunidades atingidas. Há uma década, a equipe atua lado a lado com a população do território, garantindo suporte técnico, organizacional e comunicacional para que os atingidos e atingidas estejam na centralidade em cada tomada de decisão.

As pessoas atingidas, orientadas e assessoradas pela Cáritas MG | ATI Mariana, seguem construindo esse caminho por meio da participação nos espaços de diálogo, da organização de suas pautas e da reivindicação por direitos. Nos territórios, esse trabalho também passa pelo fortalecimento dos vínculos comunitários, pela valorização dos modos de vida e pela preservação da memória. São processos que mantêm viva a relação das comunidades com seus territórios e reafirmam que as pessoas atingidas precisam estar no centro das decisões sobre a reparação. 

A trajetória da Comissão de Atingidos e Atingidas pela Barragem de Fundão demonstra que toda conquista das pessoas atingidas só foi possível por meio da mobilização popular, que precisa ser continuamente fortalecida, pois está sempre em disputa. As comunidades seguem se reunindo coletivamente na defesa de seus direitos, na busca por respostas e na reivindicação de participação nas decisões que dizem respeito às suas vidas, porque ainda há muito a conquistar. Entre a memória do que foi perdido e a resistência diante das violações que permanecem, reafirmam que não há reparação justa sem a participação de quem viveu e ainda vive as consequências do rompimento. É nessa organização coletiva que a dor encontra força para continuar movimentando a luta por justiça. 

“Eu vi que não só eu mas várias outras pessoas estavam sendo injustiçadas. E aí eu resolvi entrar na luta. Quando eu entro na luta eu não desisto, eu vou até o final” – Mauro Silva, membro da CABF 

Convidamos todas e todos da sociedade a caminhar ao lado das pessoas atingidas, somando forças na luta por memória, reparação e justiça. Participe das atividades que compõem o marco dos 11 anos do rompimento da barragem de Fundão, ao longo do mês de novembro. Sua presença fortalece essa caminhada coletiva! 

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Com informações de Território Notícias.

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